Ginseng, zinco e outros: o resto da prateleira
Depois da maca, do tribulus e da citrulina, sobra uma prateleira inteira de cápsulas com ginseng, zinco, cordyceps e L-arginina. A evidência de cada um é muito diferente e é isso que esta página separa. O ginseng tem uma revisão Cochrane de 2021 que fala em efeito trivial sobre a ereção; o zinco é o único destes ingredientes com uma alegação de saúde aprovada pela EFSA, mas essa alegação é sobre manter a testosterona normal, não sobre tratar a ereção; o cordyceps não tem um único ensaio clínico em humanos dedicado à disfunção erétil; a L-arginina tem uma meta-análise onde perde para o medicamento e só brilha quando é somada a ele.
Cada ingrediente é lido aqui pela mesma grelha: o que é, o que foi medido, em quem, que dose, que riscos e o que sobra no fim.
Os quatro ingredientes num quadro
| Ingrediente | Melhor prova disponível | O que essa prova diz | Dose usada nos estudos | Alegação EFSA |
|---|---|---|---|---|
| Ginseng (Panax) | Revisão Cochrane 2021, 9 estudos, 587 homens | Efeito «trivial» sobre a função erétil, certeza GRADE baixa | Maioria dos estudos ≤ 3000 mg/dia | Nenhuma para ereção |
| Zinco | Parecer EFSA 2009 (Art. 13(1)) | Contribui para manter testosterona normal; nada sobre tratar ereção | ≈30 mg/dia, 6 meses, em idosos com défice (Prasad 1996) | Sim — duas, nenhuma sobre ereção |
| Cordyceps | Estudos em células e em animais | Mecanismo plausível, nenhum ensaio humano em disfunção erétil | Não aplicável | Nenhuma |
| L-arginina | Meta-análise Xu 2021, 4 ensaios, 373 doentes | Melhora, mas menos do que o inibidor PDE5 isolado | Ver página da citrulina | Nenhuma para ereção |
Ginseng: porque há duas revisões com respostas diferentes
O ginseng é o caso em que a fonte escolhida muda por completo a conclusão do artigo — e o marketing escolhe sempre a mesma.
A revisão sistemática mais recente é da Cochrane, publicada a 19 de abril de 2021 (Lee HW e col., DOI 10.1002/14651858.CD012654.pub2). Reuniu 9 estudos com 587 homens de 20 a 70 anos, todos com disfunção erétil ligeira a moderada, todos com comparação contra placebo e seguimento curto, até 12 semanas. A frase da conclusão é esta: «Ginseng appears to have a trivial effect on erectile dysfunction when compared to placebo» — o ginseng parece ter um efeito trivial sobre a disfunção erétil quando comparado com placebo, medido pelo domínio de função erétil do questionário IIEF-15.
A certeza da prova foi classificada como baixa na maior parte dos desfechos, com um aviso explícito dos autores: o efeito verdadeiro pode ser substancialmente diferente do que a revisão mostra.
A versão otimista existe e é mais antiga. É a revisão de Jang DJ e col., publicada em 2008 no British Journal of Clinical Pharmacology (66(4):444-450): 7 ensaios aleatorizados, dos quais 6 contra placebo entraram na meta-análise, com 349 homens no total e um risco relativo de 2,40 (IC 95%: 1,65-3,51; p<0,00001) a favor do ginseng vermelho. Os próprios autores classificaram a qualidade metodológica média dos ensaios como baixa e a evidência como «sugestiva», não conclusiva.
Porque prevalece a Cochrane e não o número de 2008
São três diferenças concretas, não uma questão de gosto:
- a revisão Cochrane é 13 anos mais recente e inclui quase o dobro dos participantes (587 contra 349);
- aplica o sistema GRADE, que classifica a certeza de cada resultado — a revisão de 2008 não o fez;
- os autores da Cochrane não encontraram um único ensaio a comparar ginseng com o tratamento estabelecido, os inibidores da PDE5.
Fica também uma ressalva honesta a favor do ginseng: a maioria dos estudos usou doses iguais ou inferiores a 3000 mg por dia, abaixo do que os próprios fabricantes recomendam, e os autores admitem que o efeito pequeno observado pode dever-se a doses sub-óptimas.
O que dizem as guidelines europeias
As EAU Guidelines 2025 on Sexual and Reproductive Health (atualização de março de 2025) mantêm uma recomendação onde o ginseng aparece: «Use supplements with L-arginine or ginseng daily in men with mild ED who refuse pharmacological treatment after counselling them that the improvement of EF could be mild.» A força atribuída é fraca (Weak), e a própria recomendação avisa que a melhoria pode ser ligeira.
As duas fontes não se contradizem tanto como parece. A Cochrane diz «trivial», a EAU diz «ligeira» — palavras diferentes para a mesma ideia: se existe efeito, é pequeno. A diferença está no tom, não na direcção.
Veredicto do ginseng. É o ingrediente com mais ensaios humanos desta página e mesmo assim o resultado agregado é pequeno e de certeza baixa. Faz sentido para quem recusa medicação e quer tentar algo com alguma base; não faz sentido como substituto de um tratamento que a mesma guideline recomenda com força forte.
Zinco: a única alegação aprovada — e o que ela realmente diz
O zinco é o único ingrediente deste grupo com alegações de saúde autorizadas na União Europeia. São duas, aprovadas ao abrigo do Artigo 13(1) do Regulamento (CE) 1924/2006 e publicadas no EFSA Journal 2009;7(9):1229:
- «o zinco contribui para a fertilidade e reprodução normais» (ID 297, 300);
- «o zinco contribui para a manutenção de níveis normais de testosterona no sangue» (ID 301).
Ler a formulação com atenção poupa dinheiro. Manutenção de níveis normais não é o mesmo que aumento: a alegação cobre manter dentro do normal aquilo que já está normal. E nenhuma das duas fala em disfunção erétil, tratamento, ereção ou desempenho — quem escreve isso no rótulo está a ir além do que a EFSA autorizou.
Quem beneficia mesmo de tomar zinco
A evidência aponta benefício sobre a testosterona apenas em homens com défice de zinco comprovado, e o estudo primário por trás dessa ideia é conhecido: Prasad e colegas, na revista Nutrition em 1996. Nove homens idosos (64 ± 9 anos) com défice marginal de zinco tomaram 459 µmol por dia de gluconato de zinco — cerca de 30 mg de zinco elementar — durante três a seis meses; ao fim de seis meses, a testosterona sérica subiu de 8,3 para 16,0 nmol/L (p = 0,02). O mesmo trabalho mostrou o inverso noutro braço: restringir zinco na dieta de homens jovens saudáveis fez a testosterona cair.
Três ressalvas que nenhum rótulo traz. São nove homens, sem grupo placebo. O estudo mediu testosterona, não ereção — ninguém aplicou um IIEF a estes participantes. E o efeito foi obtido em quem tinha défice, o que nada diz sobre quem tem zinco normal. Fica ainda uma correção útil: o número «42 mg por dia durante 3 meses», que circula em artigos de saúde e que nós próprios tínhamos apanhado por fonte secundária, não corresponde ao que este estudo fez — a dose foi menor e o resultado foi medido aos seis meses.
Não existem ensaios grandes, controlados por placebo, a ligar suplementação de zinco à melhoria da ereção em homens com níveis normais. Se a suspeita é hormonal, o caminho é medir — ver testosterona baixa: sinais e exames — antes de somar cápsulas às cegas.
O zinco aparece raramente sozinho nas fórmulas portuguesas de «potência»: no Naturmil Tribulus + Maca, por exemplo, entram 10 mg de zinco ao lado de 700 mg de tribulus, 700 mg de maca e 200 mg de rodiola (composição reportada pelos retalhistas, não confirmada junto do fabricante).
Cordyceps: o ingrediente sem ensaio humano
O cordyceps é o caso mais simples desta página, porque não há resultados humanos para discutir. Não foi encontrado nenhum ensaio clínico aleatorizado em humanos que avalie Cordyceps sinensis ou Cordyceps militaris especificamente para disfunção erétil.
O que existe é isto:
- estudos de mecanismo: o Cordyceps sinensis e a cordicepina estimulam a produção de esteroides em células de Leydig de rato, em laboratório e no animal;
- um estudo em coelhos, com melhoria da função erétil por aumento do fluxo sanguíneo após extracto de cordyceps;
- um estudo clínico antigo em idosos com fadiga crónica, que reportou melhoria em várias áreas incluindo «hipossexualidade», sem foco em disfunção erétil e sem instrumento validado como o IIEF.
Veredicto do cordyceps. Mecanismo plausível, prova humana inexistente. É diferente de «não funciona»: é «ninguém testou em pessoas com este problema». Um rótulo que promete ereção com cordyceps está a vender uma hipótese de laboratório ao preço de um resultado clínico.
Há ainda uma confusão de espécie que ninguém esclarece na embalagem: a maior parte dos estudos usa Cordyceps sinensis, a espécie selvagem e cara, enquanto os suplementos acessíveis costumam trazer Cordyceps militaris, cultivado.
L-arginina: o suplemento que a guideline nomeia
A L-arginina é o aminoácido de onde parte a via do óxido nítrico que produz a vasodilatação necessária à ereção, e é o único suplemento — com o ginseng — citado por nome nas EAU Guidelines 2025.
A referência mais sólida é a meta-análise de Xu W e col., publicada na Andrologia a 15 de fevereiro de 2021 (DOI 10.1111/and.14007), com 4 ensaios aleatorizados e 373 doentes. Os três braços — arginina isolada, inibidor PDE5 isolado e a combinação — melhoraram a função erétil face ao início. A leitura importante é a comparação entre eles: a combinação superou qualquer um dos dois sozinhos, sem aumento significativo de efeitos adversos, e o inibidor PDE5 isolado teve melhor eficácia do que a L-arginina isolada.
Quem procura arginina em cápsula esbarra num problema de absorção: grande parte é degradada no fígado e no intestino antes de chegar à circulação. É por isso que as fórmulas modernas usam L-citrulina, que escapa a esse metabolismo e é convertida em arginina nos rins. O detalhe, com o ensaio e a dose, está em L-citrulina e disfunção erétil.
O que fica de fora desta página, e porquê
Não escrevemos aqui sobre ashwagandha, tongkat ali nem ioimbina, apesar de os três aparecerem em fórmulas vendidas em Portugal. A razão é simples: não reunimos para eles fontes primárias verificadas com desfecho de função erétil, e preferimos uma lacuna assumida a um parágrafo montado a partir de blogues.
A ioimbina tem ainda uma particularidade que merece verificação antes de qualquer recomendação: é uma substância com estatuto regulatório próprio e efeitos cardiovasculares conhecidos, o que a coloca noutra categoria de risco face a uma planta de fórmula multivitamínica. Enquanto não tivermos a fonte oficial na mão, não publicamos dose nem veredicto.
A maca e o tribulus, os dois ingredientes mais procurados deste mercado, têm página própria: maca peruana e tribulus terrestris.
O risco que estas fórmulas trazem em Portugal
O maior perigo desta prateleira não é a cápsula ser fraca — é não conter aquilo que diz conter. Segundo o Infarmed, a disfunção erétil é uma das duas áreas terapêuticas com maior impacto de contrafacção em Portugal, sendo o sildenafil a substância mais falsificada, e a origem típica destes produtos é a venda pela internet, fora do circuito das farmácias.
Já aconteceu com um produto vendido como natural: o Infarmed classificou o «Japan Tengsu», comercializado como suplemento para a disfunção erétil, como medicamento ilegal.
Um suplemento que actua em minutos, como um comprimido, quase de certeza contém um fármaco não declarado. Nenhum dos ingredientes desta página tem esse tipo de efeito imediato — o ginseng foi testado ao longo de semanas, não de horas.
Três avisos que pesam mais do que qualquer rótulo
Procure ajuda médica com urgência se tiver uma ereção com mais de 4 horas sem estimulação sexual (priapismo), dor no peito, ou perda súbita de visão ou audição.
Se toma nitratos para a angina, a combinação com inibidores da PDE5 é contraindicada e pode provocar uma queda perigosa da tensão arterial. Diga-o em qualquer farmácia ou consulta antes de aceitar qualquer produto para a ereção.
Disfunção erétil de início recente num homem jovem, ou acompanhada de fadiga marcada e perda de massa muscular, merece investigação médica — não uma cápsula.
Rótulos, ensaios e o que nenhum deles diz sobre si
Esta página serve para uma coisa concreta: pegar num rótulo e compará-lo com a literatura. Por isso cada ingrediente vem com o número de participantes, a dose e a data da fonte.
Doses aparecem sempre na forma «foi isto que o estudo usou». Não são prescrição, e a diferença não é semântica — quem decide o que lhe serve é o médico que o observa. Também não há aqui uma marca «melhor» nem lista de compras, porque a decisão útil raramente é qual cápsula levar. É saber se o problema é vascular, hormonal ou psicológico, e essa parte começa em disfunção erétil: causas e sintomas.
Fontes
- Lee HW, Lee MS, Kim T-H, e col. Ginseng for erectile dysfunction. Cochrane Database of Systematic Reviews, 19.04.2021. DOI 10.1002/14651858.CD012654.pub2 — https://www.cochrane.org/evidence/CD012654_ginseng-improving-erectile-function
- Jang DJ, Lee MS, Shin BC, Lee YC, Ernst E. Red ginseng for treating erectile dysfunction: a systematic review. British Journal of Clinical Pharmacology, 2008;66(4):444-450 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18754850/
- EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health 2025 (pocket, março 2025) — https://d56bochluxqnz.cloudfront.net/documents/EAU-Pocket-on-Sexual-Reproductive-Health-2025.pdf
- EFSA, alegações de saúde do zinco, Artigo 13(1) do Regulamento (CE) 1924/2006, EFSA Journal 2009;7(9):1229 — https://www.efsa.europa.eu/en/efsajournal/pub/1819
- Revisão sobre cordyceps e esteroidogénese/função erétil (estudos em células e animais) — https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S102194981630182X
- Xu W e col. Comparison of efficacy and safety of daily oral L-arginine and PDE5Is alone or combination in treating erectile dysfunction. Andrologia, 15.02.2021. DOI 10.1111/and.14007 — https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/and.14007
- Infarmed, Combate à falsificação de medicamentos — https://www.infarmed.pt/documents/15786/1228470/51_Combate_Falsifica%E7%E3o_Medicamentos.pdf/4ffa6943-1191-40eb-80a5-9020c2a307c0
- TSF, Infarmed alerta que o produto Japan Tengsu é medicamento ilegal — https://www.tsf.pt/sociedade/artigo/infarmed-alerta-que-o-produto-japan-tengsu-e-medicamento-ilegal/10414431
- Composição reportada do Naturmil Tribulus + Maca (retalhista) — https://www.lojashampoo.pt/naturmil-tribulus-maca-60-comprimidos
- Prasad AS, Mantzoros CS, Beck FW, Hess JW, Brewer GJ. Zinc status and serum testosterone levels of healthy adults. Nutrition, 1996;12(5):344-348. DOI 10.1016/s0899-9007(96)80058-x — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8875519/
Perguntas frequentes
O ginseng vermelho trata a impotência?
O ginseng vermelho trata a impotência?
Não há prova sólida disso. A revisão Cochrane de 2021, com 587 homens, concluiu que o ginseng tem efeito trivial sobre a disfunção erétil quando comparado com placebo, com certeza de evidência baixa. Uma revisão anterior, de 2008, tinha encontrado um efeito maior (risco relativo 2,40) em 349 homens, mas com ensaios de qualidade metodológica baixa. As guidelines europeias de urologia de 2025 mencionam o ginseng apenas com recomendação fraca e para casos ligeiros.
O zinco aumenta a testosterona?
O zinco aumenta a testosterona?
A alegação aprovada pela EFSA diz que o zinco contribui para a manutenção de níveis normais de testosterona no sangue — manter, não aumentar. O benefício documentado sobre testosterona aparece em homens com défice de zinco; em homens com níveis normais não há ensaios grandes que mostrem subida útil nem melhoria da ereção.
Ginseng ou maca peruana: qual escolher?
Ginseng ou maca peruana: qual escolher?
São perguntas com respostas diferentes porque medem coisas diferentes. Os ensaios de ginseng usaram a função erétil como desfecho e deram um efeito pequeno; os estudos de maca centram-se sobretudo no desejo sexual. A comparação completa, com os ensaios de cada um lado a lado, está na página de comparação dos suplementos.
Vale a pena uma fórmula com ginseng, zinco, tribulus e maca juntos?
Vale a pena uma fórmula com ginseng, zinco, tribulus e maca juntos?
O problema das fórmulas combinadas é a dose de cada componente. Quando quatro ou cinco ingredientes partilham a mesma cápsula, é frequente cada um ficar abaixo da dose que foi testada nos estudos. Antes de comparar preços, compare a dose declarada no rótulo com a dose usada na literatura de cada ingrediente.
O cordyceps funciona para a ereção?
O cordyceps funciona para a ereção?
Não existe nenhum ensaio clínico aleatorizado em humanos que tenha testado cordyceps para disfunção erétil. A evidência disponível é de células de Leydig de rato, um estudo em coelhos e um estudo antigo em idosos com fadiga crónica que não usou instrumentos validados de função erétil.
Estes suplementos podem ser tomados com medicação para o coração?
Estes suplementos podem ser tomados com medicação para o coração?
Essa é uma pergunta para o médico ou farmacêutico, com a lista de medicamentos na mão. O caso mais crítico documentado é o dos nitratos com inibidores da PDE5, combinação contraindicada — e é precisamente por isso que a dispensa de sildenafil em farmácia portuguesa obriga a uma checklist de contraindicações.