Que exames pedir quando a ereção falha
A avaliação de base da disfunção erétil não exige tecnologia nem hospital. Segundo as EAU Guidelines 2025, ela assenta em quatro coisas feitas numa consulta: história clínica e sexual, exame físico, duas análises de sangue — perfil de glicose e lípidos, e testosterona total em amostra matinal — e uma avaliação do risco cardiovascular. Exames especializados, como a ecografia com doppler peniano, ficam para um conjunto restrito de situações que a própria guideline enumera, e que estão mais abaixo nesta página.
Esta página serve para chegar à consulta a saber o que vai acontecer e o que pedir se não acontecer.
O que o médico avalia na primeira consulta
O algoritmo de avaliação diagnóstica mínima da EAU 2025 (Figura 2) organiza a primeira consulta em quatro eixos, para todo o homem que refere dificuldades de ereção:
- separar a queixa de outras dificuldades sexuais que não são falha de ereção;
- procurar as causas frequentes que se podem reverter;
- levantar os factores de risco ainda modificáveis;
- perceber o contexto psicológico e relacional.
O exame físico não é simbólico. Vai à próstata, à forma do pénis, aos sinais de falta de testosterona e ao estado do coração e dos nervos — tudo isso numa observação só. É por isso que uma consulta feita a sério demora mais do que passar uma receita.
Vale a pena saber a definição que a guideline usa antes de se autodiagnosticar: disfunção erétil é a incapacidade persistente de obter e manter uma ereção suficiente para uma actividade sexual satisfatória. Episódios isolados não entram nesta definição.
O IIEF, o «exame» que é um questionário
O IIEF (International Index of Erectile Function) é o questionário validado que mede função erétil e é usado como medida principal nos ensaios clínicos e nos estudos de prevalência. Não é uma análise: é um conjunto de perguntas sobre frequência, rigidez e satisfação nas últimas semanas, pontuado numa escala.
Existe na versão longa, de 15 perguntas — o domínio de função erétil do IIEF-15 foi o desfecho principal da revisão Cochrane de 2021 sobre ginseng — e numa versão abreviada de 5 perguntas, o IIEF-5, usada em muitos ensaios de suplementos. O estudo português de prevalência com 3.548 homens em cuidados de saúde primários também usou a escala IIEF.
Para quem vai à consulta, a utilidade prática é esta: as perguntas do IIEF descrevem exactamente aquilo que o médico precisa de ouvir — há quanto tempo, com que frequência, se acontece em todas as situações, se há ereções matinais. Chegar com essas respostas pensadas poupa metade da consulta.
Que análises são pedidas de base
| Análise | Porque entra na avaliação | Nota prática |
|---|---|---|
| Perfil de glicose | Diabetes é uma das causas orgânicas mais frequentes e é tratável | Faz parte dos testes laboratoriais de base da EAU 2025 |
| Perfil lipídico | Liga a disfunção erétil ao risco cardiovascular e orienta a decisão sobre estatina | Entra no cálculo do risco a 10 anos |
| Testosterona total | Procura causa hormonal (hipogonadismo) | A EAU especifica amostra matinal |
A EAU não manda pedir uma bateria de análises: os testes laboratoriais de base são o perfil de glicose e lípidos e a testosterona total, colhida de manhã. Tudo o resto depende do que a história clínica levantar.
A colheita matinal da testosterona não é um detalhe burocrático — é a condição para o valor significar alguma coisa. O que fazer com um resultado baixo, e que sintomas o acompanham, está em o que fazer com um valor baixo.
A parte cardiovascular: o exame que ninguém pede e devia
O rastreio do risco cardiovascular faz parte do protocolo de avaliação da disfunção erétil na urologia europeia, mesmo em homens sem qualquer sintoma cardíaco. A EAU 2025 inclui um algoritmo formal (Figura 3), baseado no IV Consenso de Princeton (Kloner e col., 2024), que calcula o risco ASCVD a 10 anos e estratifica os doentes em três grupos:
| Risco a 10 anos | Classificação | Conduta descrita na guideline |
|---|---|---|
| < 5% | Baixo | Seguimento e correcção de factores de risco |
| 5–20% | Intermédio | Avaliação adicional antes de decidir |
| > 20% | Alto | Estatina de alta intensidade, meta de LDL < 70 mg/dL, referenciação a cardiologia preventiva |
A razão para tanto rigor está numa revisão sistemática publicada no American Journal of Men's Health em 2017 por Raheem e col.: a disfunção erétil surge, em média, 3 a 5 anos antes do evento cardiovascular. Um dos estudos citados nessa revisão (Inman e col., 2009, Mayo Clinic Proceedings) encontrou, em homens na casa dos 40 anos, um risco de doença arterial coronária quase 50 vezes superior nos que tinham disfunção erétil.
A mesma revisão faz a ressalva que dá credibilidade ao resto: a disfunção erétil não melhora significativamente a previsão de risco para além dos factores tradicionais do Framingham Risk Score. Não substitui o rastreio cardiovascular habitual — acrescenta-lhe um motivo para o fazer agora. O tema tem página própria: o que a janela de 3 a 5 anos significa na prática.
Quando são precisos exames especializados
A ecografia peniana com doppler e os restantes exames vasculares não fazem parte da avaliação diagnóstica mínima descrita pela EAU 2025 — que se fica pela história, exame físico, análises de base e avaliação de risco cardiovascular. São exames de segunda linha, pedidos pelo especialista em situações selecionadas.
A própria guideline diz quando é que fazem sentido. A Tabela 1 das EAU Guidelines 2025 («Indications for specific diagnostic tests for ED») lista estas situações:
- disfunção erétil primária — que nunca foi diferente e não é explicada por doença orgânica adquirida nem por perturbação psicogénica;
- homens jovens com história de traumatismo pélvico ou perineal, que possam beneficiar de cirurgia de revascularização ou angioplastia com intenção curativa;
- deformidades penianas que possam exigir correção cirúrgica, como a doença de Peyronie ou a curvatura congénita;
- perturbações psiquiátricas ou psicossexuais complexas;
- perturbações endócrinas complexas;
- pedido do próprio doente ou do parceiro/parceira;
- razões médico-legais — por exemplo, documentar disfunção erétil em fase terminal antes de implantar uma prótese peniana, ou situações de abuso sexual.
A mesma tabela nomeia os exames dessa segunda linha: registo noturno de tumescência e rigidez penianas (Rigiscan®), estudos vasculares — injeção intracavernosa de fármaco vasoativo, eco-doppler dinâmico peniano, cavernosometria e cavernosografia por perfusão, arteriografia pudenda interna — avaliação endocrinológica especializada e avaliação psicodiagnóstica especializada.
Repare no que a lista não tem: «não melhorou com o comprimido» não está lá, e «quero ter a certeza» também não. O doppler é um exame de casos selecionados, não um check-up de rotina da ereção — se nenhuma das situações acima se aplica, a pergunta útil na consulta é o que falta esclarecer na avaliação de base, não que máquina falta usar.
A quem se pede: médico de família, urologia ou nenhum dos dois
A avaliação de base não exige urologista. História, exame físico e duas análises fazem-se em cuidados de saúde primários — foi precisamente nesse contexto que se fez o estudo português mais relevante sobre o tema.
E é aí que aparece o problema português. Morgado A e col., em Sexual Medicine (2019;7(2):177-183), pegaram em 200 doentes já referenciados por disfunção erétil e reavaliaram-nos um a um. O diagnóstico confirmou-se em 115. Nos restantes, a queixa principal era outra em 22,3% dos casos — a ejaculação precoce, sozinha, explicava 10,6%.
O mesmo estudo mostrou subtratamento: dos doentes com diagnóstico confirmado, só 33,9% tinham sido tratados antes, e entre os tratados apenas 45,2% chegaram à dose máxima do inibidor da PDE5. Nenhum doente tinha recebido tratamento intracavernoso com alprostadil, apesar de haver indicação.
Duas conclusões práticas saem daqui, e nenhuma delas é «vá comprar um suplemento»: um problema de ereção pode não ser disfunção erétil, e um tratamento que «não resultou» pode simplesmente nunca ter chegado à dose certa.
Checklist para levar à consulta
- há quanto tempo dura o problema e se começou de repente ou aos poucos;
- se acontece sempre ou apenas em algumas situações, e se há ereções matinais;
- lista completa de medicamentos, incluindo os do coração e da tensão;
- doenças conhecidas: diabetes, hipertensão, colesterol, problemas cardíacos;
- tabaco, álcool, peso, atividade física e sono;
- o que já experimentou por conta própria, incluindo suplementos e comprimidos.
Esta lista não substitui os quatro eixos da avaliação da EAU — serve para que eles caibam no tempo da consulta.
Enquanto espera pela consulta
Duas coisas com base sólida podem começar antes de qualquer exame.
A primeira é a mudança de estilo de vida: a EAU 2025 recomenda iniciar alterações de estilo de vida e correcção de factores de risco antes ou ao mesmo tempo que qualquer tratamento da disfunção erétil, com força de recomendação forte — a mesma força atribuída aos medicamentos de primeira linha.
A segunda é o acesso legal a tratamento sem consulta prévia. Desde maio de 2025, o sildenafil 50 mg pode ser dispensado em farmácias comunitárias portuguesas sem receita médica, por autorização do Infarmed, com avaliação do farmacêutico numa checklist de contraindicações, máximo de uma embalagem de 8 unidades de cada vez e recomendação de consulta médica dentro de 6 meses. O tadalafil continua sujeito a receita. Os detalhes, incluindo quem fica de fora, estão em a dispensa de sildenafil sem receita.
O que não fazer enquanto espera: comprar «Viagra» ou «suplementos fortes» em sites fora do circuito das farmácias. Segundo o Infarmed, a disfunção erétil é uma das áreas com maior impacto de contrafacção e o sildenafil é a substância mais falsificada — no melhor cenário estes produtos não têm substância activa nenhuma; no pior, têm impurezas, substâncias tóxicas ou um fármaco diferente do esperado.
O que não espera pela marcação
Ereção com mais de 4 horas sem estimulação sexual: é priapismo e é uma urgência médica. A forma isquémica, mais de 95% dos casos, exige tratamento imediato.
Dor no peito, com ou sem esforço, ou história recente de enfarte ou doença cardíaca grave: é consulta médica antes de qualquer tratamento para a ereção.
Perda súbita de visão ou audição em quem toma inibidores da PDE5.
Se toma nitratos para a angina, ou riociguat, os inibidores da PDE5 estão excluídos — a combinação pode provocar uma queda perigosa da tensão arterial. Este é o ponto que a checklist de dispensa em farmácia pergunta primeiro.
Os resultados não se interpretam aqui
O que esta página cobre está tudo do lado do processo: em que consiste a avaliação de base na guideline europeia de 2025, que análises entram nela, como se calcula o risco cardiovascular associado e o que os dados portugueses mostram sobre diagnóstico e tratamento.
Valores de referência de testosterona e pontuações de corte do IIEF ficaram de fora de propósito. Um número isolado só quer dizer alguma coisa ao lado da história clínica, da hora da colheita e do laboratório que a fez; em forma de tabela, produziria autodiagnósticos que não se sustentam. Quem lê o resultado é quem o pediu.
Fontes
- EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health 2025 (pocket, atualização de março de 2025) — definição, algoritmo de avaliação (Figura 2), risco cardiovascular (Figura 3), nitratos (Figura 5), priapismo, estilo de vida — https://d56bochluxqnz.cloudfront.net/documents/EAU-Pocket-on-Sexual-Reproductive-Health-2025.pdf
- Morgado A, Moura ML, Dinis P, Silva CM. Misdiagnosis and Undertreatment of Erectile Dysfunction in the Portuguese Primary Health Care. Sexual Medicine, 2019;7(2):177-183. DOI 10.1016/j.esxm.2019.01.004 — https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6522934/
- Raheem OA, Su JJ, Wilson JR, Hsieh TC. The Association of Erectile Dysfunction and Cardiovascular Disease: A Systematic Critical Review. American Journal of Men's Health, 2017;11(3):552-563. DOI 10.1177/1557988316630305 — https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5675247/
- Teles AG e col. Prevalence, Severity, and Risk Factors for Erectile Dysfunction in a Representative Sample of 3,548 Portuguese Men. The Journal of Sexual Medicine, 2008;5(6):1317-1324 — https://academic.oup.com/jsm/article-abstract/5/6/1317/6862540
- CNN Portugal, dispensa de sildenafil sem receita em farmácia (maio de 2025) — https://cnnportugal.iol.pt/viagra/receita-medica/viagra-e-os-seus-genericos-passam-a-ser-vendidos-sem-necessidade-de-receita-medica/20250509/681e69ead34ef72ee445c539
- Infarmed, Combate à falsificação de medicamentos — https://www.infarmed.pt/documents/15786/1228470/51_Combate_Falsifica%E7%E3o_Medicamentos.pdf/4ffa6943-1191-40eb-80a5-9020c2a307c0
- Lista de situações de consulta urgente, descrevendo o processo oficial de dispensa e as contraindicações — https://www.farmaciadaliga.pt/blog/sildenafil-sem-receita-cuidados-a-ter
Perguntas frequentes
Que exames devo pedir para disfunção erétil?
Que exames devo pedir para disfunção erétil?
A avaliação de base descrita nas EAU Guidelines 2025 inclui história clínica e sexual, exame físico e testes laboratoriais de base: perfil de glicose e lípidos e testosterona total em amostra matinal. A isso junta-se a avaliação do risco cardiovascular. Exames vasculares especializados, como o doppler peniano, não fazem parte desta avaliação mínima.
Qual é o médico que trata a disfunção erétil?
Qual é o médico que trata a disfunção erétil?
A avaliação inicial pode ser feita em cuidados de saúde primários — o estudo português de referência sobre o tema decorreu precisamente nesse contexto — e o urologista entra quando a avaliação de base não esclarece o caso ou quando é preciso tratamento que ultrapassa a primeira linha. Um valor de testosterona alterado orienta a investigação hormonal.
Preciso de análises antes de tomar sildenafil comprado na farmácia?
Preciso de análises antes de tomar sildenafil comprado na farmácia?
A dispensa de sildenafil 50 mg sem receita em farmácia portuguesa não exige análises: exige uma avaliação do farmacêutico com uma checklist de contraindicações, incluindo doença cardíaca grave, risco cardiovascular elevado, insuficiência hepática ou renal severa e uso de nitratos. A própria medida recomenda consulta médica dentro de 6 meses — ou seja, o comprimido resolve o sintoma e não dispensa a investigação da causa.
É preciso fazer sempre doseamento de testosterona?
É preciso fazer sempre doseamento de testosterona?
A testosterona total em amostra matinal está incluída nos testes laboratoriais de base da avaliação da disfunção erétil segundo a EAU 2025. Faz parte do conjunto mínimo, não é um exame extra pedido apenas a alguns doentes.
Fiz exames e está tudo normal. E agora?
Fiz exames e está tudo normal. E agora?
Um resultado normal nas análises não invalida a queixa. A avaliação da EAU inclui também um eixo psicossocial e a procura de causas reversíveis, e o estudo português de 2019 mostrou que em 22,3% dos casos referenciados o diagnóstico principal era outro — a ejaculação precoce foi o mais frequente. Vale mais rever o diagnóstico do que repetir análises.
Quanto tempo demora até ter resposta?
Quanto tempo demora até ter resposta?
Não temos dados verificados sobre tempos de espera para consulta de urologia em Portugal, por isso não publicamos números. O que é possível dizer é o que depende de si: a mudança de estilo de vida tem recomendação forte da EAU para começar já, e a via da farmácia existe desde 2025 para o sintoma imediato.